Câmara e Assembleia Municipal (III)
HÁ 50 ANOS AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES LIVRES PARA O PODER LOCAL NO CONCELHO DE BEJA (5)
Os candidatos dos GDUPs às eleições de dezembro de 1976, em manifesto ao povo do Baixo Alentejo, colocam-se ao lado dos assalariados rurais, na altura em defesa da reforma agrária, e reclamam uma política autárquica nos campos da saúde, habitação, cultura e infraestruturas básicas (água, luz, esgotos e estradas) ao serviço do povo e dos trabalhadores.
Afirmam-se, ainda, defensores do programa eleitoral de Otelo Saraiva de Carvalho à Presidência da República e referem que a sua eleição não servirá para que o povo fique adormecido à espera que lhe resolvam os problemas. Dizem que a única promessa que fazem é que, estando na autarquia, abrirão campo para que o povo organizado imponha pela sua luta a satisfação das suas reivindicações, a única forma de o conseguirem. Nesta linha de proposta comprometem-se, na câmara, a ouvir o povo e com ele lutar, dentro e fora da autarquia, por uma vida melhor.
A lista à Câmara dos GDUPs, cuja composição, no que diz respeito aos membros efetivos, foi publicada na passada sexta-feira tem nos primeiros lugares dois homens bem conhecidos na cidade pelas suas posições ao lado da luta dos trabalhadores.
Manuel Pegado, advogado, na qualidade de delegado do Ministério do Trabalho, em Beja, tinha aberto as portas desta delegação aos trabalhadores da construção em civil em greve, aquando da manifestação de 12 de novembro de 1975, o que lhe vale ordem de transferência, depois do 25 de novembro, pelo ministro do Trabalho, Tomás Rosa, do VI Governo Provisório, facto que motiva uma forte resistência dos trabalhadores de Beja a este saneamento político, liderada pela delegação local do Sindicato da Construção Civil, a qual tem o ponto alto na manifestação de 24 de fevereiro de 1976 convocada por cinco delegações sindicais, vinte e uma comissões de trabalhadores e delegados sindicais de serviços e empresas existentes na cidade, quatro cooperativas, uma das quais de assalariados rurais, nove comissões de moradores e pelo Secretariado da Intercomissão de Moradores de Beja.
O segundo da lista, Joaquim Lemos, carpinteiro, é dirigente da delegação de Beja do Sindicato da Construção Civil, tendo nessa qualidade liderado a luta dos trabalhadores deste ramo de atividade, no segundo trimestre de 1975, pelo horário de trabalho de 40 horas a qual culmina na greve de novembro deste ano e na manifestação de 12 do mesmo mês.
O PCP (m-l) – Partido Comunista de Portugal (marxista-leninista) é uma fação do movimento m-l em Portugal, tendo como 1.º secretário Eduíno Gomes, natural de Ervidel, conhecido pelo pseudónimo de Vilar. Embora tendo reduzida implantação no distrito de Beja, onde nas eleições para a Assembleia da República de 1976 obtém 557 votos, 0,46% dos sufrágios, concorre à Câmara de Beja com uma lista muito jovem, o cabeça de lista, Jorge Colaço, tem 19 anos, a média de idades dos candidatos é de 21 anos e a maioria são estudantes, seis num total de dez (sete efetivos e três suplentes). Quanto ao programa eleitoral este fica-se por um ataque cerrado ao PCP, que apelidam de social fascista, e à defesa de executivos homogéneos, pelo que são contra a eleição proporcional.
Ainda quanto à composição das listas concorrentes à Câmara Municipal sublinhe-se que dos cinquenta candidatos apresentados pelas cinco listas (sete efetivos e três suplentes por cada uma) só cinco é que são mulheres, 10% do total, sendo as candidaturas da FEPU e do PCP (m-l) as únicas onde o elemento feminino está ausente.
Este facto é bastante ilustrativo da situação da mulher na sociedade portuguesa durante Estado Novo. Afastada do espaço público e remetida à família, enquanto cuidadora dos filhos e da família, pela ideologia fascista, conquista na revolução dos cravos a rua e o direito à fala. No entanto, dois anos depois, tal alteração não é suficiente para impor um papel significativo na vida política institucional assente nos partidos políticos.