Sines cumpre tradição do Banho 29 entre mergulho madrugador e cortejo de memória
Entre o mergulho madrugador de jovens e turistas e o cortejo ‘vestido’ de memória, o Banho 29 voltou hoje a cumprir-se no concelho de Sines, celebrando a ligação das comunidades ao mar.
Quando o relógio marcou as 07:00, cerca de uma centena de pessoas, reunidas minutos antes na praia do Banho, em Porto Covo, correu para o mar.
Na sua maioria jovens, os participantes de fato de banho mergulharam sem hesitações, apesar da força do mar e da surpresa provocada pela temperatura da água.
“Tenho 22 anos e desde os 15 que cumpro esta tradição que tem cada vez mais adeptos, desde os jovens aos mais velhos, mas para que se cumpra é preciso mesmo dar o mergulho”, contou Tiago Campos, residente em Porto Covo, em declarações à agência Lusa.
Todos os anos, no âmbito das festas tradicionais da aldeia turística, promovidas pela Junta de Freguesia de Porto Covo, cumpre-se o ritual de 29 de agosto, que atrai também quem escolhe a costa alentejana para passar férias.
É o caso de Marta Mateus, que, apesar de conhecer esta tradição há vários anos, convenceu agora o marido e um casal amigo a “irem a banhos” e não se arrependeu.
“Há cinco anos que venho passar aqui férias e resolvemos vir, este ano, por altura das festas para cumprir a tradição. Foi muito bom e achei que valeu muito a pena”, partilhou com a Lusa após o banho de mar matinal.
Duas horas mais tarde, Sines preparava uma celebração diferente, mais demorada e ‘vestida’ de outros tempos, com mulheres e homens trajados de camponeses ou usando combinações, toucas e pijamas.
“Antigamente vínhamos assim vestidas. Não podíamos mostrar o corpo”, contou Dionilde Mansos, enquanto exibia a combinação confecionada por si e por uma amiga para um grupo de 14 mulheres.
O cortejo partiu, já depois das 09:30, do Jardim das Descobertas, acompanhado por gigantones, uma charrete puxada por um cavalo e a música da Banda Filarmónica da Sociedade Musical União Recreio Sport Sineense, recentemente reativada.
“Hoje de manhã estava na cama e dizia que não vinha, mas depois vesti qualquer coisa e vim pela tradição”, contou Amanda Batista, que, por impulso, retirou do baú algumas peças antigas, juntou-lhes “os cestinhos” e encontrou um chapéu que combinasse.
Preservar esta tradição “é especial”, na sua opinião: “[Representa] o que nos caracteriza enquanto povo e o que nos diferencia uns dos outros”, sublinhou a jovem.
Em poucos minutos, dezenas de pessoas desceram as ruas da cidade até à Avenida Vasco da Gama ao som da música e de pequenos versos, atraindo os olhares de quem encontravam pelo caminho.
“A água deve estar fria, está sempre fria”, antecipou Maria Oliveira, vestida de lavradora e preparada para trocar o traje pela combinação que levava por baixo e por uma touca para cobrir a cabeça.
Quando questionada pela Lusa se era necessária coragem, não hesitou: “É, mas eu tenho”, garantiu, lembrando que este banho "vale por 29".
Entre os participantes estava também António Rodrigues, de 78 anos, que recordou os tempos em que o Banho 29 estava associado à antiga feira de Sines.
“Está enraizado no povo. A feira acabou, mas o Banho 29 mantém-se”, explicou, antes de enfrentar uma água tão fria que, antecipou, daria “para enrolar as unhas”.
Chegados à praia Vasco da Gama, alguns participantes entraram devagar no mar, enquanto outros mergulharam de imediato e até os gigantones foram levados à água, no meio de uma grande animação.
“Há uma tradição mais antiga que tem a ver com as pessoas do campo que vinham à praia. Vinham na charrete, vestidas como era habitual no campo, e não havia biquínis. Era a questão do pudor”, recordou a presidente da Junta de Freguesia de Sines, Silvia Jermias.
Para a autarca, a tradição representa “a ligação que as pessoas da terra têm com o mar” e permite perceber “a evolução dos costumes”.
Depois do mergulho, o farnel saiu das cestas de verga e foi servido um lanche partilhado na praia Vasco da Gama, oferecido pela Junta de Freguesia de Sines.
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