O LARGO (segundo Fonseca, em tempos de Ventura e à atenção dos pretendentes ao poder local)

      Nenhuma outra geografia do território português sofreu tantas nem tamanhas transformações impostas pelo homem ao longo da sua história. Nem nenhuma dessas metamorfoses foi tão intensa e tão acelerada como aquela que ainda hoje está em curso nas planícies agora irrigadas pela barragem do Alqueva. No espaço de uma única geração, ao deserto sucedeu o mar. Um oceano interior que obrigou a uma reconversão drástica da paisagem. Todavia, a repentina transfiguração dos vastos territórios de sequeiro em férteis oásis, com a consequente refundação das estepes cerealíferas em florestas de oliveiras e amendoeiras, é apenas o lado visível de uma transmutação global que está a abalar todas as áreas da vida comunitária: da economia às questões culturais e identitárias, passando pelo ambiente, pela demografia e, muito em especial, pelo paradigma comunicacional no seio das pequenas comunidades rurais. O pasto perfeito para a propagação invasiva de uma nova infestante sociopolítica, a dos populismos.

     Desde a década de 1950 que o Alentejo está em perda sistemática de população. A chegada da água do Alqueva e o incremento das culturas intensivas permanentes, que já ocupam mais de 70 por cento da superfície em produção, trouxe desde logo uma novidade aos campos do Sul: os trabalhadores estrangeiros. Pela primeira vez, em muitas décadas, a imigração está a superar a emigração. Os pequenos aglomerados populacionais, até então confrontados com o envelhecimento em massa e com a irreversível “fatalidade” do despovoamento galopante, assistiram, de um dia para o outro, à inversão drástica da sua vida em comum. O que produziu (está a produzir) um choque cultural sem precedentes, alicerçado no medo, na desconfiança, na perceção de uma alegada insegurança que, na verdade, se resume ao obstáculo linguístico e à dificuldade em lidar com o outro: o desconhecido.

     É justamente na ausência de uma política de integração que as perceções mais ou menos ficcionadas se sobrepõem à realidade, que o desconhecimento leva avanço sobre a razão e que a intolerância ganha espessura a cada dia que passa. As precárias condições laborais e remuneratórias dos trabalhadores estrangeiros indiferenciados, na sua grande maioria originários da península hindustânica, da Roménia ou da Moldávia, muitas das vezes reféns de redes internacionais de tráfico humano, compulsam à insalubridade e à sobrelotação habitacional, à subnutrição e, por inevitável, à mendicância. Condições de pobreza exagerada que estão a ser amplificadas por discursos extremistas enviesados e xenófobos. Ou não estivesse o próprio líder nacional do Chega candidato à Assembleia Municipal de Moura nas próximas eleições para as autarquias locais.

     Em paralelo ao fluxo migratório sem precedentes nas aldeias que estão dentro da área de influência do regadio de Alqueva, um outro “fenómeno” demográfico avança de forma decidida: a sedentarização da população cigana. Nesta altura existem já localidades da margem esquerda do Rio Guadiana, como é o caso de Póvoa de São Miguel, onde um terço dos residentes pertencem àquela etnia. Uma percentagem que tem tendência a crescer exponencialmente nas próximas décadas, já que as taxas de natalidade comparativas entre a envelhecida população dita “tradicional” e a população cigana é de um para dez. Esta realidade não é exclusiva desta povoação, antes pelo contrário, mas foi aqui que o Chega obteve percentualmente a sua maior votação a nível nacional nas últimas Eleições Legislativas.

     A sedentarização dos cidadãos portugueses de etnia cigana na região de Alqueva, que está inegavelmente a exacerbar os discursos intercomunitários e, inclusive, a fomentar conflitos sociais, dever-se-á, em grande medida, a um fator até aqui pouco ou nada evidente: a religião. Com efeito, nos últimos 20 anos, em simultâneo, mas não em função direta da construção da grande barragem, a Igreja Evangélica Filadélfia de Portugal, mais conhecida por “Igreja dos Ciganos”, propagou-se com grande intensidade por todo o território do Baixo Alentejo e, muito em concreto nos concelhos mais próximos ao Rio Guadiana.

     Ainda que o apelo central desta religião se basei na não-violência e na proscrição do consumo de tabaco, álcool e de qualquer outro tipo de drogas, certo é que ela veio “normalizar” ou “institucionalizar” os cidadãos ciganos como parte integrante e de pleno direito da vida em sociedade. Ousadia que, num tempo político e social onde a intolerância em relação aos ciganos ganha contornos quase pandémicos, não deixou de afetar os “equilíbrios” ancestrais das pequenas comunidades rurais do Alentejo interior, já incapazes de lidar com as “embates” culturais decorrentes dos fluxos migratórios e, não menos decisivo, com o impacto identitário provocado pela radical alteração paisagística do seu meio natural envolvente.

     Para além deste novo fluxo populacional, da sedentarização dos ciganos e da metamorfose da paisagem, as populações envelhecidas do Alentejo foram igualmente confrontadas nos últimos anos com uma alteração radical no conceito de propriedade agrícola. Alqueva originou não uma reforma agrária, mas antes uma reforma fundiária absoluta. Se já antes o Alentejo era reconhecido pela sua estrutura latifundiária onde, ainda assim, subsistia alguma micro propriedade junto aos aglomerados populacionais, estima-se hoje que perto de 70 por cento do território esteja nas mãos de apenas meia-dúzia de empresas multinacionais e de fundos financeiros.

     Se o objetivo do Estado Português e da Comunidade Europeia quanto investiram 2,5 mil milhões de euros neste empreendimento agrícola era dissolver a grande propriedade histórica do Alentejo e disseminar a pequena e média propriedade irrigada, diversificando o tipo de culturas, o tiro saiu invertido. Com o avanço avassalador da monocultura do olival e do amendoal, não apenas a diversidade cultural se perdeu como a propriedade se concentrou como nunca antes acontecera. O que não deixou de ferir a pequena agricultura familiar e de subsistência, gerando um, mais um, foco de desconforto social.

     Mas se se torna evidente que as estruturas sociais, culturais, políticas e económicas das pequenas comunidades rurais do Baixo Alentejo estão neste momento a passar pelo “olho de um furação civilizacional”, há um outro fator que pode (e está) a concorrer para a desagregação: a alteração do paradigma comunicacional. Por tradição, como de forma bem explícita o expôs o escritor Manuel da Fonseca, o largo da aldeia era o centro do mundo. Era ali que se obtinham as notícias, as novidades, que as entidades oficiais publicitavam as informações relevantes para a vida comunitária, que se transacionavam bens e serviços, que se estabeleciam os laços sociais e familiares... enfim, era ali que se comunicava.

     Com o envelhecimento das populações locais e com as barreiras linguísticas e culturais impostas pelo acréscimo das comunidades imigrantes, o largo deixou de existir enquanto “meio de comunicação” de proximidade. Gerando um vazio comunicacional que o incremento da veiculação informativa quase em exclusivo através dos “meios eletrónicos” apenas veio robustecer. Que os novos media estão a influir na organização psicossociológica destas micro comunidades rurais, não restam dúvidas. Falta saber é se estão a alimentar o discurso do ódio, da intolerância e do racismo. Ou, em sentido oposto, se estão possibilitando a conciliação desta verdadeira manta-de-retalhos intercultural que se formou nas aldeias do Alentejo. Perceber o exato alcance desse seu papel não é apenas fundamental para compreender os processos de integração social: é quase como reinventar o velho largo da aldeia no ecrã de um dispositivo eletrónico. 

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